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Artigo

07/01/2010

A Copenhague que importa

A Copenhague que importa

Thomas L. Friedman
Do The New York Times

COPENHAGUE -Ao ouvir a ministra da economia e negócios da Dinamarca contar como seu país aumentou a tributação das fontes energéticas para estimular a inovação da energia verde para em seguida canalizar a receita dos impostos de volta para a indústria e os consumidores dinamarqueses e assim facilitar a criação e o consumo de novas tecnologias limpas, aquilo me soou algo inteligente. Foi como se os dinamarqueses tivessem se olhado no espelho após a crise do petróleo de 1973, descoberto sua total dependência do petróleo do Oriente Médio e criado uma estratégia de longo prazo para garantir a segurança energética da Dinamarca, ao mesmo tempo em que lançavam os fundamentos de uma nova indústria.

Quanto mais ouvia a ministra dinamarquesa, Lene Espersen, mais eu pensava no meu próprio país, em como escutei várias e várias vezes da boca de políticos norte-americanos que a simples proposta de aumentar a tributação da gasolina em 10 centavos de dólar por galão para fazer os Estados Unidos um país independente na área de energia e estimular a eficiência no consumo de combustível era uma "carta fora do baralho", um suicídio político na certa.

Na não foi bem assim na Dinamarca. Então eu perguntei à ministra dinamarquesa: "Me diga, de que planeta vocês são mesmo, hein?"

Espersen riu. Eu não. Por quanto tempo nós, norte-americanos, vamos continuar achando que podemos prosperar no século XXI quando fazer aquilo que é o ideal - seja com energia, saúde, educação ou o déficit público - é uma "carta fora do baralho"? Essas coisas foram banidas por uma coalizão específica de lobistas carregados de dinheiro, indiscretos âncoras de talk show que criticam qualquer um que discorde deles, consultores políticos que alertam para a sentença de inelegibilidade que seria pedir aos norte-americanos que fizessem algo importante porém difícil e até pela população, que já não se interessa pelo ideal por acreditar que o ideal é impossível.

Sinto muito, mas não podemos nos dar ao luxo de descartar nenhuma boa idéia que funcionou em outras sociedades democráticas/capitalistas - principalmente quando precisamos construir uma economia baseada no conhecimento com bons empregos e o resto do mundo está tentando fazer a mesma coisa.

"Os impostos verdes já são bem elevados", disse Espersen. "E mesmo sabendo que isso não agrada o comércio e nem a indústria, foi algo que fez toda a diferença para nós. Essa tributação forçou nossas empresas a se tornarem mais eficientes e inovadoras em termos de utilização de energia, e assim de uma hora para outra estávamos inventando coisas que ninguém ainda tinha inventado porque nossas empresas precisavam ser competitivas."

Recentemente o Instituto de Estudos Ambientais e Energéticos, um centro de pesquisa apartidário, e a embaixada da Dinamarca fizeram uma conferência para mostrar como a Dinamarca está trabalhando para se tornar uma economia que pouco utiliza as fontes energéticas ricas em carbono. Eis alguns destaques:

Embora a maior parte de sua eletricidade ainda venha da queima do carvão, "desde 1990 a Dinamarca conseguiu reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 14%. No mesmo período, o consumo de energia dinamarquês permaneceu constante e o produto interno produto do país cresceu mais de 40%. A Dinamarca é o país de maior eficiência energética da UE, seja pelo preço das fontes baseadas no carbono, por meio da taxação energética, pela taxação do carbono, pelo sistema de 'cap and trade', pelas rigorosas normas sobre edificações e pelos programas de classificação energética de aparelhos. As fontes renováveis atualmente respondem por cerca de 30% de toda a eletricidade da Dinamarca. A energia eólica é a maior fonte da eletricidade renovável, seguida pela biomassa. Atualmente, Copenhague descarta apenas 3% de seu lixo em aterros e incinera outros 39% para gerar a eletricidade usada em milhares de lares."

O governo dinamarquês canaliza recursos obtidos com a tributação da energia "de volta para a indústria, dedicando boa parte desses recursos para subsidiar a inovação ambiental", escreveu Monica Prasad, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Normativas da Universidade Noroeste, em um ensaio publicado neste jornal em 25 de março de 2008. Por isso, "as empresas dinamarquesas são afastadas das fontes baseadas em carbono e atraídas para a inovação ambiental, sem que a economia do país seja colocada em situação de desvantagem concorrencial."

É por essa razão que a Dinamarca, que tem apenas 5 milhões de habitantes, se vangloria de ter algumas das principais empresas de energia eólica, biocombustíveis, aquecimento, refrigeração e eficiência energética do mundo. As tecnologias energéticas atualmente respondem por 11% das exportações dinamarquesas. As exportações de petróleo e a tributação da energia também subsidiam o transporte de massa e a eficiência energética, reduzindo as contas pagas pelos consumidores dinamarqueses.

De onde os políticos dinamarqueses tiram coragem para fazer o que é certo - mesmo de forma dolorosa?

"Não temos muitos recursos", diz Ida Auken, porta-voz do S.F., um partido verde/socialista dinamarquês. "Temos um estado de bem-estar social que precisamos manter, por isso precisamos pensar na vanguarda o tempo todo sem nos prender ao passado. É daí que tiranos a coragem. E faz 30 anos que vemos isso dar resultado. Trata-se de um bom negócio. As empreiteiras dinamarquesas estão pedindo normas mais rigorosas sobre edificações, pois sabem que se forem eficientes e cumprirem essas normas aqui, poderão concorrer em qualquer lugar do mundo."

Companheiros norte-americanos, o fato de a recente cúpula do clima de Copenhague ter sido um fiasco pois não conseguiu resolver nossos problemas energéticos/climáticos não significa que podemos ignorar esses problemas - nem que podemos ignorar que países como a Dinamarca conseguiram abordá-los sozinhos e de forma satisfatória. Já que o desemprego na Dinamarca está na casa dos 4% e o nosso em 10%, talvez devêssemos pelo menos considerar colocar algumas dessas cartas em cima da mesa.

 

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

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